sábado, 29 de janeiro de 2011

Silêncio.

O silêncio não era denso mas transparente. Quase não ocupava espaço. Inclusivamente uma pessoa podia habituar-se a este silêncio e ser feliz.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A vista da minha janela

De repente estou só no mundo
e o que vejo da janela é o mundo ausente.
Uma paisagem para a minha condição. Só.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A POESIA É O ÚNICO MILAGRE QUE CONHEÇO.

" o amor é uma noite a que se chega só "
José Tolentino Mendonça

Visual POETRY. a vida toda na pequenez dos dias.

Everyone Forever Now - "Stoop Sitting" from Everynone on Vimeo.

POETRY IN (SLOW) MOTION.

VISUAL POETRY. a vida toda na pequenez dos dias.

De olhos fechados como a um gato.

" Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados como a um gato, a tudo o quanto poderia ter dito "
Bernardo Soares no Livro do Desassossego

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

sábado, 8 de janeiro de 2011

Meu amor.
E a poesia viva. Entre nós.
Sem palavras, sem procura.
Só assim.
O nosso cosmos.
O infinito inteiro
entre a nossa pele.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

AGORA


Entra pela noite dentro

uma claridade de lua e de olhos despertos.

Cala fundo a solidão da hora

e as palavras a serem escritas

Destino implorado

contra a morte da memoria.

Dorme-se agora por aí.

São oníricas as paisagens de quem

sem o apelo da alvura do papel

sem a traição da lembrança só

Só abre os olhos depois de os fechar.

Nada se move.

O céu agora com o croma do infinito

é sozinho.

Entra pela noite dentro.

terça-feira, 16 de junho de 2009

SERIE POESIA REENCONTRADA

Os textos com esta designação são escritos que, já com algum tempo, estou a revisitar ... 
POESIA REENCONTRADA

Parem tudo! Parem!... apaguem a luz e desliguem o sol. Escondam a lua, arrefeçam as noites quentes, ponham uma musica triste e não façam barulho que eu estou a pensar em ti. Suspendam o mundo e a pressa, guardem todos os projectos nas gavetas, parem de trabalhar, sentem-se no primeiro balcão e fiquem a ver-me destilar a tua saudade. Desistam de tentar demover-me, com ardilosos métodos, deste meu estado. Deixem-me estar. Eu quero estar triste.

É injusto o mundo para com a tristeza. Retirou-lhe o espaço, roubou-lhe liberdade. Hoje em dia não é bom estar triste, não é saudável, não é moderno, não está de acordo com a norma. A boa disposição veio, galopante, tomar conta da infelicidade das nossas vidas. Já ninguém aceita estar triste. Já ninguém aceita por companhia esse estado de alma e quando alguém está triste logo o mundo se revolta e exclui e logo saltam os amigos em socorro do companheiro ferido pelo desgosto e a saudade. Parem!! Eu quero estar triste!! Porque a tristeza também se conquista, também tem uma luz própria a iluminar as manhãs. Porque estar triste é ser honesto com o coração sozinho. É adormecer ofegante com os desejos reprimidos.

Parem tudo. Façam silêncio. Eu estou triste. Tenho saudades tuas ou de alguém. Sinto a tua falta. Leio poemas seguidos e são todos sobre nós. Passam as horas em que tu não estás e o tempo volta para trás, para antes de ti. Estou triste. Amarrotado. Sozinho. A navegar pelas águas, traiçoeiramente tranquilas, da minha tristeza. Demasiado ocupado com a tua memória para me lembrar sequer de continuar a viver. Aqui, mais ou menos, firme, a sentir a tua ausência.

Respeitem a minha tristeza. Não digam nada. Não minimizem o sofrimento com a trivialidade dos dias. Vocês sabem lá o que é estar triste. Nunca se permitiram a vocês próprios. Nunca se deixaram consumir pelo fogo lento da saudade. Nunca se encostaram na esquina de uma rua qualquer a ver o amor a desatar. A desatar a fugir. Para longe, para ficarmos a vê-lo existir sem nós só á distância do olhar e do carinho.

Porra! Deixem-me ser triste e melancólico. É assim que sou. A minha tristeza presta homenagem aos meus amores perdidos. É um tributo á minha felicidade momentânea. É parte do próprio amor. É o palpitar constante no peito. É o choro sem razão nenhuma para além do sabor salgado das lágrimas.

Estar triste não é o fim do amor é a constatação do mesmo. É amar tanto que dói. Querer tanto que se torna impossível. É humano e poético. Magoa, custa tanto como crescer, mas tem de ser.

Estar triste é ter a certeza de ter amado. É a alma a gritar por ti.




POESIA REENCONTRADA
Um dia morro
Aflito de vontades
um dia subo esse muro
e atiro-me para cima de outra vida qualquer;
rebolo-me nos medos e nos cheiros desse outro Universo,
afogo-me nas lágrimas dessas outras pessoas,
respiro-lhes o sangue e o sexo,
roubo-lhes as memórias suaves,
usurpo-lhes os dias felizes
e
Lentamente
deixo-me invadir por tudo o que nunca foi meu.

( Nesses dias só vou ter medo que me faltem as saudades da outra vida que ficou para trás. )

terça-feira, 3 de março de 2009

IMPRESSÕES BASCAS

O PEQUENO BASCO

Abriu muito lentamente a janela, apenas o suficiente para conseguir passar a mão. Já com a mão de fora deixa deslizar pela parede até á rua o pau da bandeira. Fecha a janela inspirando devagar como se isso o fizesse mais silencioso. Não conseguiu deixar de esboçar um pequeno sorriso. A bandeira dobrou-a meticulosamente até que coubesse no unico bolso disponível do saco que tinha a tiracolo. Entrou na sala já de casaco e gorro insuspeitos. A mulher estava de pé com o filho ao colo a pôr-lhe um ultimo agasalho. Sorriam. Sorriu-lhes. " Está pronto? ". Mais umas luvas e mais um " não te esqueças de prendê-lo sempre ao carrinho" depois e " sim, está pronto. Mas aonde vão vocês afinal? ".- "Dar uma volta só" e o sorrisinho a vir por aí fora a crescer por dentro. Era melhor sair já.
Desceram até á rua e viraram para a direita de modo a passar pela janela de onde a mulher dizia adeus e gritava um ultimo cuidado. Acenou de volta, segurou o sorriso, deu a volta para as traseiras do prédio, olhou para os lados, apanhou o pau de bandeira, olhou outra vez á volta e depois para dentro do carrinho onde estava o filho e soltou finalmente o sorriso.
Dali foram directos para o Casco Viejo, a bandeira ainda na mala, o pau ainda inutil, só prometedor. Ainda uma paragem. Calle Perro. Boinas Elosegui. A primeira boina, há muito encomendada. " Agora sim " e os olhos rasos de água. Lá vão eles "calle" abaixo até chegar a Ribera. Começa a ouvir-se o burburinho incitado dos comicios politicos. Param a menos de 100 metros do primeiro aglomerado de pessoas. Abre o saco, tira a bandeira, desembrulha-a, enfia-a no pau. Descansa-a no ombro e com a outra mão empurra o carrinho do filho até uma zona com menos gente. Enquanto se gritam palavras de ordem permanece,silencioso, de bandeira encostada ao ombro, de sorriso posto e o seu pequeno basco ali de boina nova a coleccionar memórias.
Regressam. Todo um processo. Ir ás traseiras deixar o pau. Embrulhar a bandeira e guardá-la agora no casaco. Dar uma volta ainda maior pela rua de trás para parecer que vinham do parque caso a mulher estivesse á espera já na janela. - " Então onde foram? Demoraram ". Não responde está a esconder a bandeira á pressa. A mulher tira o filho do carrinho. Estava tudo bem. Agasalhos, luvas, preso ao carrinho com o cinto e... aquela boina. O pequeno basco com a pequena boina.Sorriu. Ele viu-a sorrir. Ela percebeu. Afinal aquilo não era politica. Era ternura.