
Há sempre qualquer coisa em mim que quer transformar-se em palavras.
A vida inteira em letras seguidas.
Palavras que aparecem depressa.
Vestígios de solenidade.
Tangentes à poesia.
Nomes de coisas.
Desenho helvético a ilustrar a rotina.
A vida inteira em letras seguidas.
E depois as palavras lado a lado.
A falarem por nós. A falarem de nós.
Em fundo branco. A tomarem peso.
Ou ditas em choro. A perderem-se em dores.
A companhia quando vigiamos o escuro.
As imagens límpidas de quem não vê.
Sussurradas, perto do fim.
Fossem elas o que fica.
Seriam os nossos restos mortais. Sobreviventes das exéquias.
A ressoarem morte dentro.
Vida fora.
Há sempre qualquer coisa em mim que quer transformar-se em palavras.
Até que as palavras são tudo o que resta. Tudo o que é.