quinta-feira, 29 de março de 2012

...d'après Paul Claudel.

Há sempre qualquer coisa em mim que quer transformar-se em palavras.

A vida inteira em letras seguidas.

Palavras que aparecem depressa.

Vestígios de solenidade.

Tangentes à poesia.

Nomes de coisas.

Desenho helvético a ilustrar a rotina.

A vida inteira em letras seguidas.

E depois as palavras lado a lado.

A falarem por nós. A falarem de nós.

Em fundo branco. A tomarem peso.

Ou ditas em choro. A perderem-se em dores.

A companhia quando vigiamos o escuro.

As imagens límpidas de quem não vê.

Sussurradas, perto do fim.

Fossem elas o que fica.

Seriam os nossos restos mortais. Sobreviventes das exéquias.

A ressoarem morte dentro.

Vida fora.

Há sempre qualquer coisa em mim que quer transformar-se em palavras.

Até que as palavras são tudo o que resta. Tudo o que é.


sábado, 14 de maio de 2011

P.C.


Há sempre qualquer coisa em mim que quer transformar-se em palavras.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Regresso.

O meu dia é o teu regresso. Meu amor.
O ar parado da espera. A entreter a metade de mim.
E eis que chegas para interromper o meu sonambulismo.
Para condensar as particulas de poesia suspensas no ar,
poeira visível de encontro á luz.
Um abraço denso e voltamos a ser inteiros.

Passou uma noite inteira e ainda não é manhã.


Passou a noite inteira
e ainda não é manhã.
Ainda escorrem palavras
do suor das cabeças perdidas.
Ainda é escuro
o suficiente
para prometer um dia longe.
Aqui
presente, destilado no Norte,
tenta-se agarrar um rasgo de luz que fique.
Uma recordação qualquer
para que não passe a noite inteira
directamente para a metade escura da memória.
Ainda não é manhã.
Mas urge fugir á alvura cruel do dia perdido.

AL BERTO

sexta-feira, 11 de março de 2011

S.

Chega-se só
ao silêncio.
Universo portátil.
Espaço tenue de nós próprios.
a fazer as grandes viagens.
Quieto.
A envelhecer num tempo lento
Presente interrompido pela memória.
Silêncio
a vida por dentro.

Se tiveres de escolher um reino.

Se tiveres de escolher um reino,
escolhe o meu peito.
Geografia sem pontos cardinais,
imune ao tecto estelar
ilegível por astrolábio.
Continente devastado,
ilha de nós próprios.
Socalco de pele,
cordilheira de respiração.
Coração pulsante
terramoto de nós mesmos.
Território por explorar,
já ocupado pelo sonho.
O meu peito.
Vastidão do amor á solta
que conquistaste,
tornaste teu
com um sussurro.

sábado, 5 de março de 2011

Estes ultimos dias que acabaram de passar.



Aqui estes ultimos dias que acabaram de passar.
A vida prestes a ser memória recente.
Capturar luz, sem aviso.
Diário de minutos, segundos.
E o tempo ali,
decepado pelo olho mecânico.
Não é passado, é um momento só.



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Ausência.


Da ausência nasce o pensamento.

Belo, belo. Tudo,


Poesia geracional.

Para o J.



video
( Num carro para Campolide. Dia sexual. )

Uma mulher de carne azul,
semeadora de luas e de transes,
atravessou o vidro
e veio, voadora,
sentar-se no meu colo
na nudez reclinada
dum desdém de espelhos.

( Mas que bom! Ninguém suspeita
que levo uma mulher nua nos joelhos. )

José Gomes Ferreira in " Poesia III "

Passing Time

(...) aquele caminho pareceu-lhe longo, como se atravessasse uma idade. (...) Caminhava com ervas pelos joelhos, as estrelas eram o Universo inteiro a acompanhá-lo. "
J.L.Peixoto in " Livro "

sábado, 29 de janeiro de 2011

Silêncio.

O silêncio não era denso mas transparente. Quase não ocupava espaço. Inclusivamente uma pessoa podia habituar-se a este silêncio e ser feliz.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A vista da minha janela

De repente estou só no mundo
e o que vejo da janela é o mundo ausente.
Uma paisagem para a minha condição. Só.